Nenhuma verdade pode ser dita sem causar conseqüências maiores do que seu próprio significado.
Durante toda minha vida, me fizeram acreditar que para ser feliz, tem que ser sincero; “Honestidade é tudo”. Assim acreditei sempre e não é agora que me desiludi dessa verdade. Eu não quero dizer que me tornei falsa, sem algum propósito maior. É só que me encontro em um local onde tudo o que me cerca não é real. São todos feitos de mentiras, e como é de se esperar, esses cospem falsidade para todos os ouvidos que são capazes de ouvi-los. E se alguns não o fazem, eles impõem-se fazendo qualquer um ouvir. É assim que seguem proclamando justiça e o bem de todos para alguns, e sendo completamente o oposto com os outros. Hipocrisia completa. E quanto mais grito para que todo mundo ouça que não são sinceras essas palavras, mais essas mentiras que existem pairando pelo ar, abafam meus tolos gritos. Gritos prematuros e bastante ingênuos. Ainda assim, bastante sinceros.
Talvez seja eu a mais hipócrita da história proclamando que os que me cercam são completamente vazios de verdades. Mas, a verdade que me cerca é essa, se é que ainda existe uma verdade. “Todo mundo mente”, foi o que sempre lembrei a mim mesma, e desde que passei a fazê-lo nunca mais me surpreendi de forma além do que esperada diante de alguma pessoa que não consegue manter o único propósito esperado, a sinceridade. Acredite, mentiras não são o fim do mundo, e até existe a parcela de gente que mente pra ajudar. Para deixar claro, não acredito em mentiras com propósito de “ajudar”, mentiras nunca fizeram alguém feliz, e se por acaso o fizeram, foi uma farsa de felicidade, rápida e ilusória. No seu final, como sempre, dolorida.
Em comparação, a verdade não anda me trazendo muitos sorrisos e aquela sensação de dever cumprido. Eu que já pensava ter aprendido, e tinha dito a mim mesma que ninguém iria me dar ouvidos naquele lugar, nem em outro, não consegui segurar minhas teorias. As verdades, simples e cortantes, escaparam de minha boca como um pássaro que foi preso um dia e que quer experimentar novamente a sensação de liberdade. Minhas palavras foram tomando forma, e assim, como flechas que foram mais tarde desviadas, atingiram o alvo. E para a surpresa de qualquer um, era o alvo errado: eu acertei a mim mesma. Minhas palavras infâmes, com sorte todas verdadeiras, tentando derrubar aquele muro imenso de mentiras, retornaram ao seu lugar de origem. Foi como um tiro no escuro, em que só existe uma pessoa no quarto. Essa única pessoa é a que mais tenta ser sincera, e é tola sem saber. Infelizmente, dá um tiro carregado de verdades com a arma virada para sua face. Fez tudo isso pensando que a verdade salvaria alguém e poderia até fazê-la dormir melhor. Tola, ingênua! Devia saber antes que existem pessoas que não sabem enfrentar verdades, nem mesmo as suas próprias verdades. E o pior de tudo: quase todas são assim.
Eu caí. Eu sangrei, sangrei, sangrei. E quando mais me vi perdida, foi que encontrei resposta. Ou melhor, me deram a resposta por detrás de todos os olhares. Eu estava caminhando para a direção errada, regredindo meu aprendizado. Eu estava, praticamente me jogando em uma estrada em que os carros passam em velocidade máxima, todos esses carros completamente cegos. Era pedir pra morrer, e mesmo com o coração que insistia em bater, era uma morte profana. Vida sem cor, onde você não consegue participar diretamente de nada, só sobrevoa olhando atentamente tudo o que acontece. Eu não sabia disso antes, e jamais poderia saber. Encontrava-me carregada de sentimentos maiores que eu mesma, e totalmente desconhecidos. Até poderia descrever toda essa mistura de sentimentos como algo parecido com vingança, contendo ares de arrogância. Mas, na verdade eu só queria provar pra todos que eu era muito mais do que eles pensavam, e tudo o que eu não precisava era provar algo para alguém. Não faria diferença alguma. Eu era e continuo sendo para eles, o que a pequena compreensão deles consegue definir. Não sabem de mim, e tampouco poderiam saber. Eu não me expresso muito bem, às vezes nem mesmo faço questão
Naquele tempo, estava com o coração sangrando dores incomunicáveis, e sempre incompreensíveis. E foi dessa dor que nasceu a minha vontade louvável de acreditar que minha felicidade se encontrava justamente na minha incompreensão, e de todos os outros. O lado que eu nunca tinha tocado antes. Era essa a parte que me faltava, e só depois de ser tocada profundamente no lugar que mais me amendrotava, é que concluí que eu nunca sei como vai ser. Mas, o que eu sei é que aquilo vai sempre se encontrar lá, esperando que eu o encontre e possa finalmente expressar e ocupar os ouvidos de quem nunca me ouviu. Pode ser que demore, pode ser que eu não viva o suficiente pra completar minha meta. E até mesmo que os caminhos do futuro me carreguem pra bem longe daqui, num lugar distante onde minha vida jamais cruze com as vidas profanas que me cercam hoje. Eu não sei o que vai ser, nem como, nem onde. O que eu sei é que a compreensão total me aguarda, até eu encontrá-la e perceber que de compreensão me falta muito mais, que não existe compreensão total e que as dúvidas que hoje me cercam são a motivação que possuo para continuar.
A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.